Resenha Crítica
Pena, Roberto Patrus Mundim. Ética e felicidade, 5.ed. Belo Horizonte: Faculdade de Estudos Administrativos, 2000.
CREDENCIAL DO AUTOR:
Roberto Patrus Mundim Pena, é Mestre em Administração, pós-graduado em Filosofia da Religião, Psicólogo e filósofo. Trabalha como psicoterapeuta de adultos e adolescentes no centro de Psicoterapia Esotérica e como professor de Filosofia e Ética em cursos de graduação e pós-graduação, em instituições de ensino superior, entre elas a FEAD, a FUMEC e a PUC-Minas.
Resumo da obra:
O livro é constituído de quatro partes, cada uma delas de responsabilidade do autor e para uma maior fundamentação teórica, o autor buscar realizar citações de clássicos como Platão, Maquiavel, Kant, Descartes, dentre outros. Cada uma das partes do livro versa sobre Ética e verdade ( primeira parte ), Ética e felicidade ( segunda parte ), Ética e participação ( terceira parte ) e no final, conclui os seus estudos.
Na introdução da obra, o autor identifica a relevância da discussão do tema ética em todos os segmentos da sociedade civil ( livros, debates, cursos, programas ), visando o estabelecimento de ações cotidianas que tenham um elo com ética. Busca analisar a ética como a razão de ser das escolhas e quando se promove o juízo do padrão de comportamento, elucida o que seja moral; e de forma explícita diz que “o estudo da ética implica em investigar os fundamentos e critérios que determinam o que convém.”
Na primeira parte de sua obra, intitulada ÉTICA E VERDADE, o autor enfatiza que a felicidade é a finalidade da ética e para realizá-la é necessário que se utilize da verdade e do conhecimento da verdade e que, segundo o autor, “o objetivo de todo conhecimento é a apropriação da verdade”, através da qual o objeto é reconhecido pelo sujeito. Porém, o objeto não pode ser o real, pois o sujeito irá visualizá-lo de acordo com suas expectativas. Para dar um maior embasamento a tal afirmação, nos diz Paul Tillich ( 1987, p.91 ) “a representação verdadeira de um ser é o resultado de expectativas desiludidas em nosso encontro com a realidade”. É, também, citado Platão em sua Alegoria da Caverna, onde é estabelecida uma análise entre o conhecimento e sua realidade com a verdade e a ética e conclui que, sendo conhecedor da verdade, o sujeito abandona a ignorância e, sendo a verdade o caminho do bem, é porque o indivíduo deseja praticar o bem; e se não o pratica é porque ainda não o conhece; e quando o pratica ( o bem ), mesmo sem conhecê-lo, isto se dando de forma imperativa, é o que Platão vai conceituar de Ética Normativa – princípio que se impõe como norma à conduta.
É também abordada a crise do modelo normativo de ética que vai ser alterado por pensadores como Maquiavel, Descartes e Kant, chegando a um resultado final de que com o passar do processo histórico do homem, há uma mutação de pensamentos e isso vai determinar que a verdade e sua relação com a ética e com a vida do homem em sociedade foi alterada de tal forma que pensar em ética e verdade, está vinculado aos processos sociais, educacionais e culturais dos indivíduos. “ Não há mais um ethos, mas vários; não há uma Ética, sim , muitas” ( CNBB, 1993, p.16 )
Na segunda parte de sua obra, ÉTICA E FELICIDADE, é identificado que a ética atual é tratada a partir do sujeito, como Kant nos chama a atenção para a personalização da ética e na valorização dos conceitos de consciência, autonomia e liberdade do sujeito. Daí, desde Sócrates, percebe-se no homem a mutabilidade de comportamentos ( atitudes ) e das relações entre as pessoas.
Contudo, é de suma importância uma localização conceitual do êthos ( espaço que o homem constrói para sua proteção ) e do éthos ( modo de agir que se contrapõe ao impulso do desejo ), porque dessa forma se constrói e se dinamiza o processo de conscientização do ser humano, pois, o processo de conscientização o torna mais humano.
É importante ressaltar que o processo de conscientização, irá implicar em tomada de compromissos ( decisões ) que, nem sempre serão marcados pelo assumir das responsabilidades dos fatos. Quando não se assume a responsabilidade por uma frustração em determinada atitude, isso demonstra que a referida atitude estava totalmente tomada pela dependência de um ser perante o outro, desconfigurando o processo de autonomia. Mas, quando determinados compromissos são firmados, de forma que o sujeito se enxergue como responsável pelos seus atos, isto demonstra a configuração do processo de autonomia e, conseqüentemente, os processos de realização profissional e/ou pessoal se configuram.
Para promover a compreensão do papel da consciência e do trabalho no processo de auto-realização, o autor utiliza do mito de Adão e Eva para elucidá-lo. Dessa forma, o ser humano toma consciência da perda de sua totalidade ( paraíso ) e passa a tomar consciência do outro, das diferenças que estão presentes à sua volta.
Destarte, a consciência do todo e das diferenças são apontadas da seguinte forma:
Inconsciência inferior: é anterior à capacidade de ver-se a si mesmo;
Consciência reflexiva: é a capacidade de perceber a si mesmo, de ver-se vivendo;
Consciência do absoluto: é a superação da consciência reflexiva, é a tomada de consciência que o indivíduo é parte de um todo.
Ao confrontar-se com o dualismo ( diferenças ), o ser humano vai de encontro ao bem estar, da superação da falta. Para tanto, o indivíduo possui dois caminhos: o caminho da evolução que exige o aperfeiçoamento da consciência e a aceitação da realidade; e o caminho da regressão que é marcado pela recusa do indivíduo em desenvolver-se.
Além da consciência, é chamada a atenção de que o trabalho é um dos elementos para o alcançar da felicidade, pois o trabalho envolve atividades que dão um sentido de organização pessoal, organização profissional, dando um caminho em direção à harmonia. “Quando se diz que o trabalho dignifica o homem e não se analisam as condições de trabalho, que brutalizam, entorpecem, exploram certos homens em benefício de uns poucos, estamos diante da idéia de trabalho e não da realidade histórico-social do trabalho” ( CHAUÍ, 1984 ). Segundo o autor “ deve-se lutar contra as más condições de trabalho, e não contra o trabalho”.
Por último, nessa parte de sua obra, o autor fala da importância da consciência de si e do autoconhecimento, para se ter o conhecimento do verdadeiro do que seja a realidade; daí a frase “conhece-te a ti mesmo”, como pressuposto para a realização ética do ser, pois o conhecimento de si mesmo é o caminho para o alcançar da felicidade humana. Destarte, o autoconhecimento implica em um alcance maior da felicidade, pois permite ao se humano programar racionalmente suas condutas.
Na terceira parte da obra, intitulada ÉTICA E PARTICIPAÇÃO, ressalta-se o processo de investigação do problema da verdade, a partir da pessoa humana e identifica que mesmo as decisões sendo individuais, não se pode desconsiderar a sua relação com a coletividade, pois, segundo o autor, “a atuação do sujeito no mundo repercute no ambiente social em que vive”.
Assim sendo, a conquista da felicidade humana está diretamente condicionada à tomada de consciência de si mesmo, de participar do macro-cosmo ( mundo ), cooperando e trabalhando para o alcançar de interesses, nunca deixando de lado o processo democrático que implica na legitimidade da liberdade e no respeito às diferenças.
Na conclusão da obra, o autor chama a atenção para que o propósito da reflexão ética é colocá-la a serviço da humanidade para o alcance da felicidade. Deve-se, no entanto, analisar a verdade dos fatos e entender que, se ávida é construída sobre a verdade, são de suma importância a consciência, o autoconhecimento, o amor e o trabalho e levar em consideração, é claro, o importância da coletividade e segundo o autor “ quando se sente partícipe do todo e pensa que a sua compreensão da vida coincide com o que a vida é, o ser humano sente-se feliz, capaz de perceber a harmonia e unidade de tudo que há”.
Ademais, a leitura e, conseqüentemente, o estudo da obra Ética e Felicidade, fornece subsídios para a análise e para a compreensão da ética, da moral, da verdade e da busca da felicidade.
Faz-se mister ressaltar o estabelecimento dos conceitos de ética e verdade ao longo do processo histórico da humanidade, pois dessa forma percebe-se que a construção de um macro-cosmo ( sociedade civil ) está condicionada à construção dos micro-cosmos ( indivíduo ), formando, dessa forma, uma harmonia social que devido ao processo de trabalho, a realizações pessoais e coletivas existirão, alcançando, assim, um grau de felicidade que incentivará uma integração cada vez maior entre o indivíduo e a sociedade civil, estabelecendo a interligação constantes de tais atores.
Vale destacar na obra que a harmonia entre os seres que buscam um melhor convívio em sociedade, abarcará resultados positivos na construção do progresso da humanidade, onde a legitimidade da participação de todos ( democracia ) implicará em subsídios para os bens individual e coletivo, implicando, assim, na conquista da felicidade.
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